Análise Psicanalítica: O Cheiro do Ralo


ANÁLISE PSICANALÍTICA DO FILME O CHEIRO DO RALO – Patricia Paula Paiva 

                                                                                          1. INTRODUÇÃO

O filme O Cheiro do Ralo, estreado em 2006,  dirigido por Heitor Dhalia e protagonizado por Selton Mello no papel de Lourenço, apresenta uma narrativa marcada  pelo  humor  ácido,  pelo  grotesco,  pelo  desconforto  e  pela transformação  progressiva  da  realidade  em  torno  das  obsessões  de  seu protagonista. O filme é uma adaptação do romance homônimo de Lourenço Mutarelli, publicado originalmente em 2002. 

A narrativa acompanha Lourenço, proprietário de uma pequena loja na qual compra objetos de pessoas que, em grande parte, chegam ao estabelecimento movidas pela necessidade financeira. Ele estabelece os preços, decide o que cada  objeto  vale  e  frequentemente  utiliza  a  situação  de  fragilidade  dos vendedores para exercer poder sobre eles. Ao mesmo tempo, desenvolve uma série  de  obsessões  particulares:  o  cheiro  que  vem  do  ralo  de  seu estabelecimento,  o  olho  de  vidro,  a  figura  imaginária  do  pai,  a  bunda  da garçonete e os objetos que acumula.

À  primeira  vista,  Lourenço  pode  ser  interpretado  simplesmente  como  um homem  cruel,  egoísta  e  socialmente  inadequado.  Entretanto,  uma  leitura psicanalítica  permite  perceber  que  seu  comportamento  não  se  resume  à maldade ou à excentricidade. Suas ações revelam uma tentativa constante de controlar aquilo que, em sua experiência psíquica, ameaça escapar ao seu domínio:  o  desejo,  o  outro,  o  corpo,  o  dinheiro,  a  memória,  a  falta  e, principalmente, aquilo que ele não consegue eliminar de si mesmo.

Nesse  sentido,  o  ralo  é  muito  mais  do  que  um  elemento  do  cenário.  Ele funciona como o grande eixo simbólico do filme. Lourenço começa tentando eliminar o cheiro, chega a tampar o ralo e atribui o odor a uma causa externa. Entretanto, aquilo que inicialmente provoca repulsa acaba sendo incorporado à própria identidade do personagem. Em determinado momento, ele percebe que sua força está relacionada justamente ao cheiro que tanto procurava eliminar. O que deveria ser rejeitado retorna e passa a exercer sobre ele uma espécie de atração.

É justamente nesse movimento que se encontra uma das questões centrais desta análise: Lourenço passa a vida tentando transformar a falta em posse, o desejo em objeto, o outro em mercadoria e aquilo que o incomoda em algo que possa controlar. Porém, o ralo representa aquilo que não se deixa dominar completamente.

A partir de Freud, Lacan e outros autores da tradição psicanalítica, é possível compreender  o  comportamento  de  Lourenço  como  expressão  de  conflitos relacionados  ao  narcisismo,  à  compulsão  à  repetição,  ao  fetichismo,  ao controle,  à  falta  e  ao  desejo.  Não  se  pretende  estabelecer  um  diagnóstico clínico  do  personagem,  mas  compreender  como  o  filme  dramatiza determinadas formas de funcionamento psíquico.

Bruno  Shimizu  (2014),  ao  analisar  o  filme,  articula  narcisismo,  fetichismo, consumismo e exclusão social, demonstrando como as dimensões psíquica e social podem se encontrar na construção de Lourenço. Tardivo (2011), por sua vez,  chama  atenção  para  a  relação  entre  liberdade,  perversão,  desejo  e impossibilidade  de  controle  presente  na  narrativa.  Essas  contribuições  são importantes para fundamentar a análise, mas o objetivo aqui é avançar a partir delas  e  construir  uma  leitura  integrada  dos  símbolos  e  das  relações apresentadas pelo filme.

2. O RALO: DA REJEIÇÃO AO RETORNO DO QUE FOI REJEITADO

O título do filme anuncia, desde o início, aquilo que será um dos seus maiores símbolos. O cheiro do ralo invade o espaço de trabalho de Lourenço e interfere em sua rotina. Lourenço avisa aos clientes que entram em seu escritório que aquele mal cheiro vem do ralo, como se tivesse receio que pensassem que o mau cheiro  estivesse vindo dele, numa  tentativa inconsciente de esconder a sua própria podridão: seus defeitos e os seus vícios.  Ele  reclama do odor, tenta  descobrir  a  origem  e  procura  eliminá-lo.  Em  determinado  momento, chega  a  tapar  o  ralo,  como  se  pudesse  resolver  o  problema  simplesmente retirando de circulação aquilo que o incomodava. 

A atitude pode ser compreendida, em uma perspectiva psicanalítica, como uma tentativa de afastamento. O personagem deseja colocar para fora aquilo que considera desagradável, sujo ou insuportável. O ralo, por sua própria função, é o  lugar  destinado  àquilo  que  deve  desaparecer.  É  o  caminho  por  onde  os restos são conduzidos para longe do espaço habitável.

Entretanto,  o  filme  produz  uma  inversão  progressiva:  aquilo  que  deveria desaparecer retorna.

Essa dinâmica permite uma aproximação com a noção freudiana de recalque e retorno do recalcado. Para Freud (1915), aquilo que é afastado da consciência não deixa simplesmente de existir. O conteúdo reprimido continua produzindo efeitos e pode retornar de formas indiretas, deslocadas ou simbólicas. O ralo pode  ser  compreendido  justamente  como  uma  representação  desse movimento:  Lourenço  tenta  fechar  o  caminho  daquilo  que  rejeita,  mas  o conteúdo retorna pelo cheiro.

O mais significativo, porém, é que o personagem não permanece para sempre na  posição  daquele  que  rejeita.  Aos  poucos,  ocorre  uma  transformação. O cheiro do ralo deixa de ser apenas um inimigo e passa a fazer parte da própria relação de Lourenço com o mundo.

Essa  transformação  é  fundamental.  O  que  inicialmente  provoca  repulsa começa a adquirir valor. O personagem chega a perceber que sua força está relacionada  ao  cheiro  do  ralo  e,  posteriormente,  rompe  aquilo  que  havia colocado sobre ele. O movimento de fechar e depois reabrir o ralo pode ser entendido  como  uma  passagem  da  tentativa  de  repressão  para  uma espécie de identificação com aquilo que havia sido rejeitado.

Shimizu  (2014)  observa  justamente  essa  transformação  de  Lourenço: inicialmente incomodado pelo cheiro, ele tenta vedar o ralo; posteriormente, passa a atribuir ao odor uma função de força e reabre o espaço que havia fechado.A leitura proposta aqui é que o ralo representa uma dimensão de Lourenço que ele  não  consegue  dominar  porque  não  está  fora  dele.  Ele  tenta  colocar  a sujeira do lado de fora, mas a narrativa demonstra que a sujeira também está dentro de sua própria forma de funcionamento.

Essa interpretação torna o final especialmente significativo. Quando Lourenço se aproxima do ralo e chega a deitar-se para sentir seu cheiro, ocorre uma inversão completa da relação inicial. Ele já não está tentando fugir do odor. Ele se aproxima dele.

O que antes era objeto de rejeição torna-se objeto de atração.

Essa aproximação não precisa ser entendida apenas como gosto pelo mau cheiro. O gesto representa a aceitação — ainda que perturbadora — de algo que Lourenço passou grande parte do filme tentando controlar. O ralo passa a funcionar como uma espécie de espelho negativo do personagem: quanto mais ele  tenta  expulsá-lo,  mais  ele  retorna;  quanto  mais  tenta  dominá-lo,  mais percebe que depende dele.

O ralo, portanto, não é apenas o lugar de onde vem o mau cheiro. É o lugar simbólico do resto, do que não pode ser completamente eliminado, do que sobra depois que tudo aquilo que tem valor de troca é separado e organizado.

E  Lourenço  é  justamente  um  homem  obcecado  por  separar,  classificar, comprar, vender e possuir.

3. DINHEIRO, SUJEIRA, RETENÇÃO E TRANSFORMAÇÃO DO OUTRO EM MERCADORIA

A loja de Lourenço constitui o espaço onde sua relação com o dinheiro se manifesta de maneira mais evidente. As pessoas chegam trazendo objetos que possuem valor afetivo, histórico ou simbólico. Lourenço, porém, reduz esses objetos a um preço.A situação é especialmente significativa porque muitos vendedores chegam ao estabelecimento em condições de necessidade. Eles precisam do dinheiro e, portanto, estão em uma posição de fragilidade diante daquele que compra.

Lourenço transforma essa necessidade em instrumento de poder.

O objeto que para alguém possui uma história passa a valer, para ele, apenas aquilo que está disposto a pagar. A memória é convertida em mercadoria. A história é transformada em preço. O vínculo afetivo é substituído pela lógica da troca.

Nesse  sentido,  o  dinheiro  não  aparece  simplesmente  como  instrumento econômico. Ele funciona como instrumento de domínio.

Freud (1908), ao discutir o erotismo anal, estabelece relações simbólicas entre retenção, controle, organização e dinheiro. Não significa afirmar de maneira simplista que “dinheiro é fezes”, mas reconhecer que determinados significados associados à retenção e ao controle podem encontrar representação simbólica na relação com o dinheiro.

Essa  associação  é  particularmente  interessante  no  filme  porque  dinheiro, sujeira e ralo aparecem constantemente próximos.

O homem que compra objetos usados controla o dinheiro; o ralo expulsa aquilo que  é  considerado  resto;  e  Lourenço,  paradoxalmente,  tenta  controlar justamente aquilo que deveria ser descartado.

Existe, assim, uma espécie de circuito simbólico entre reter e eliminar.

Lourenço quer reter pessoas, objetos, partes de corpos, histórias e imagens, mas quer eliminar aquilo que ameaça seu controle. O problema é que aquilo que  ele  elimina,  retorna.  O  ralo  é  a  representação  mais  concreta  dessa contradição.

A relação de Lourenço com os objetos também demonstra que sua compulsão não  está  simplesmente  em  comprar.  Ele  atribui  aos  objetos  histórias  que frequentemente ultrapassam aquilo que realmente sabe sobre eles. O olho de vidro, por exemplo, recebe uma história particular relacionada ao pai.

O objeto deixa de ser apenas um objeto. Ele passa a carregar uma narrativa inventada por Lourenço.

A partir daí, a mercadoria deixa de funcionar apenas como coisa comercial e passa  a  servir  à  construção  de  uma  identidade.  É  como  se  Lourenço utilizasse  os  objetos  para  preencher  espaços  internos  que  não  consegue elaborar de outra maneira.

Costa (2010), ao analisar a relação entre objetos, fetiche e inutilidade na obra, observa que Lourenço não se interessa somente pela materialidade das coisas, mas também pelas histórias e simbolismos que elas carregam. Essa leitura ajuda  a  compreender  por  que  seus  objetos  parecem  funcionar  como extensões de sua própria vida.

A  lógica  da  mercadoria,  entretanto,  ultrapassa  os  objetos.  Ela  chega  às pessoas.

É nesse ponto que a crítica social do filme se encontra diretamente com a psicanálise.

Lourenço vive em uma sociedade em que quase tudo pode adquirir valor de troca. Ele leva essa lógica ao extremo. Se um objeto pode ser comprado, ele acredita que talvez também possa comprar uma parte do corpo de uma mulher, comprar o olhar, comprar a disponibilidade, comprar a submissão e, em última instância, comprar o outro.

O filme mostra, portanto, uma sociedade na qual a necessidade econômica cria relações profundamente desiguais. Mas também mostra como o próprio sujeito pode  incorporar  essa  lógica  até  transformar  seus  vínculos  em  relações  de posse.

É possível aproximar essa leitura de Erich Fromm (1976), especialmente de sua distinção entre uma existência orientada pelo “ter” e outra orientada pelo “ser”. Lourenço está radicalmente situado no campo do “ter”: ter objetos, ter dinheiro, ter poder, ter o corpo do outro, ter histórias, ter o olhar.

Quanto mais possui, entretanto, mais sua falta aparece.

4. O OLHO DE VIDRO: O PAI, A AUSÊNCIA, O OUTRO E O PODER DO OLHAR

Entre  todos  os  objetos  que  circulam  pela  loja,  o  olho  de  vidro  possui  uma importância particular.

O olho é um órgão relacionado ao olhar, à percepção e ao reconhecimento. Mas aquele olho específico não vê. É um olho artificial, separado de um corpo vivo. Justamente por isso, torna-se extremamente significativo para Lourenço.

O vendedor apresenta o olho como algo que teria visto muitas coisas. A partir daí, o objeto ganha uma espécie de história própria. Lourenço se interessa por ele e, posteriormente, cria uma narrativa segundo a qual o olho teria pertencido a seu pai, morto em uma guerra.

O pai, portanto, não aparece simplesmente como memória. Ele é construído por Lourenço a partir de objetos.

Essa  construção  revela  uma  dificuldade  fundamental  do  personagem:  ele parece precisar produzir uma origem para si mesmo.

O pai representa autoridade, origem, referência e pertencimento. Mas o pai de Lourenço  é  apresentado  de  maneira  fragmentada,  mediado  por  objetos  e narrativas. O personagem não encontra o pai como presença concreta; ele o reconstrói através da fantasia.

O olho passa, então, a funcionar como um fragmento do pai.É importante observar que Lourenço também atribui ao objeto uma relação com o poder. O olho teria visto a guerra, teria testemunhado acontecimentos e carregaria uma história que o próprio Lourenço não viveu.

O olho torna-se testemunha.

Mas há uma contradição: o olho não vê.

Essa contradição é central para sua interpretação.

Lourenço  transforma  um  objeto  sem  visão  em  uma  espécie  de  sujeito  que observa.  O  olho  torna-se  uma  extensão  de  seu  próprio  olhar.  Ele  não possui  apenas  o  objeto;  possui  simbolicamente  aquilo  que  acredita  que  o objeto viu.

Essa dimensão aproxima-se da teoria lacaniana do olhar. Para Lacan (1964), o olhar não pode ser reduzido simplesmente ao ato fisiológico de enxergar. O sujeito também se encontra implicado naquilo que imagina ser visto pelo Outro. O olhar participa do desejo e da constituição do sujeito.

No filme, Lourenço quer olhar, mas também quer possuir aquilo que olha.

Isso fica particularmente evidente quando leva o olho de vidro para observar a garçonete.

O objeto que supostamente pertenceu ao pai transforma-se em instrumento para olhar o corpo feminino.

O  pai,  a  autoridade,  o  olhar  e  o  desejo  sexual  encontram-se,  assim, condensados em um único objeto.

5. O OLHO, A GARÇONETE E O DESEJO PELO OBJETO-PARTE

A  garçonete  ocupa  uma  posição  fundamental  na  economia  do  desejo  de Lourenço. Ele não se interessa por ela enquanto sujeito em sua totalidade. Sua atenção está concentrada em uma parte específica de seu corpo: sua bunda.

Essa redução é essencial para compreender o funcionamento do desejo do personagem.

Freud (1905), ao estudar a sexualidade, mostra que a pulsão sexual não se organiza  necessariamente  de  maneira  totalizante.  Partes  do  corpo  podem adquirir significação privilegiada e se tornar objetos de investimento pulsional. Mais tarde, em Fetichismo (1927), Freud analisa como determinado objeto ou parte  do  corpo  pode  assumir  uma  importância  sexual  que  ultrapassa  sua função ordinária.

No caso de Lourenço, a bunda da garçonete adquire um valor que parece superar  a  própria  pessoa.  Ele  não  deseja  conhecer  verdadeiramente  a mulher. Deseja aquela parte.

É por isso que sua relação com ela é tão importante para compreender sua estrutura psíquica. Ele tenta transformar o desejo em propriedade.

Se aquela parte do corpo lhe pertence, ele imagina que terá controle sobre o desejo que sente.

Essa  tentativa  aparece  de  maneira  particularmente  perturbadora  quando Lourenço formula a possibilidade de comprar a bunda da garçonete.

O absurdo da situação produz humor, mas o humor não elimina sua dimensão violenta.  Pelo  contrário,  torna  a  violência  mais  desconfortável  justamente porque  apresenta  como  aparentemente  banal  algo  profundamente objetificador.

Negreli  e  Sodré  (2019),  ao  analisarem  a  relação  de  Lourenço  com  a garçonete,  destacam  a  centralidade  dessa  obsessão  e  a  transformação  da figura feminina em objeto dentro da lógica grotesca da narrativa.Entretanto, o filme não mostra apenas o desejo de Lourenço. Mostra também sua  frustração  quando  percebe  que  o  outro  não  pode  ser  completamente transformado em objeto.

A garçonete tem vontade própria.

Ela  pode  desejar,  recusar,  se  afastar,  sentir-se  ofendida  e  agir  de  maneira diferente daquela que Lourenço havia imaginado.

Esse é um dos momentos em que sua fantasia de controle começa a falhar.

Lourenço estranha algo que não havia previsto.  O inesperado o incomoda porque o outro, quando realmente é outro, não obedece ao roteiro que ele escreveu.

Tardivo  (2011),    destaca  justamente  essa  dimensão  de  imprevisibilidade: Lourenço se depara com acontecimentos que escapam ao seu planejamento, o que produz nele desconforto e ameaça sua posição de controle.

O desejo, nesse sentido, não é simplesmente uma vontade de possuir. Ele também nasce da falta. Lacan permite aprofundar esse ponto ao compreender o desejo como estruturalmente articulado à falta. Para ele, o desejo não se reduz à busca ou à posse de um objeto concreto, uma vez que o objeto a ocupa a posição de causa do desejo, e não de objeto capaz de proporcionar uma satisfação definitiva, (LACAN, 2008). Dessa forma, desejo de Lourenço não  se  satisfaz  definitivamente  pela  posse  de  um  objeto,  porque  está estruturalmente relacionado à um vazio. Lourenço tenta resolver essa falta  por meio  da  aquisição  de  objetos,  mas  cada  objeto  adquirido  produz  novas necessidades e novas obsessões.

Ele compra o olho.

Quer a bunda.

Coleciona objetos.

Cria histórias.Compra coisas e pessoas. 

Mas nada encerra definitivamente seu desejo.

6. A GARÇONETE E A EXPERIÊNCIA DO PRAZER

A relação com a garçonete também apresenta uma dimensão sexual que não pode  ser  ignorada.  Lourenço  transforma  o  corpo  dela  em  objeto  de contemplação e fantasia e chega a vivenciar situações nas quais ela se despe para ele.

Esse detalhe é importante porque mostra que a relação não está limitada à fantasia  distante.  O  corpo  da  mulher  efetivamente  entra  no  campo  de experiência de Lourenço.

Mesmo assim, a satisfação não se completa.

Se o problema de Lourenço fosse simplesmente falta de acesso ao corpo da mulher, a obtenção desse acesso deveria resolver sua obsessão. Não resolve.

O prazer não elimina a falta.

Ao contrário, pode intensificá-la.

A garçonete também evidencia a diferença entre o corpo enquanto objeto e a pessoa enquanto sujeito. Lourenço quer a parte do corpo, mas não consegue lidar adequadamente com a mulher que possui aquela parte.

É  justamente  por  isso  que  a  sexualidade  aparece  no  filme  associada  ao controle.

Lourenço tenta reduzir o desejo a uma operação comercial: se posso comprar um objeto, talvez possa comprar aquilo que desejo no corpo de alguém.

Mas o corpo humano não funciona como mercadoria da mesma maneira que os objetos de sua loja.O desejo não é uma transação comercial.

O outro não é uma peça de coleção.

E é justamente essa impossibilidade que o personagem não consegue aceitar.

7. A MULHER VICIADA: QUANDO O OBJETO VOLTA COMO SUJEITO

A  presença  da  mulher  viciada  amplia  ainda  mais  a  discussão  sobre  a transformação do outro em objeto.

Ela aparece em uma situação de vulnerabilidade e mantém com Lourenço uma relação marcada pela exploração, pelo dinheiro e pela objetificação. Lourenço utiliza  sua  fragilidade  para  estabelecer  uma  relação  em  que  ele  ocupa  a posição de quem paga e determina as condições.

Assim como acontece com os objetos vendidos em sua loja, a necessidade do outro torna-se oportunidade de poder.

Entretanto, essa relação sofre uma ruptura decisiva no final.

A mulher que havia sido colocada em posição de objeto retorna como sujeito capaz de agir.

Ela atira em Lourenço.

Esse acontecimento é fundamental para a leitura psicanalítica do filme porque destrói a fantasia de onipotência que sustentava o personagem.

Lourenço  acredita  durante  grande  parte  da  narrativa  que  pode  prever, comprar, manipular e controlar. Mas não consegue controlar o desejo do outro.

A mulher que ele tratava como objeto demonstra que possui vontade própria.

Ela pode feri-lo.Pode interromper sua fantasia.

Pode colocar um limite.

O tiro representa, portanto, mais do que uma agressão física. Simbolicamente, ele representa o retorno daquilo que Lourenço não conseguia reconhecer: o outro  possui  uma  subjetividade  que  não  pode  ser  completamente comprada.

Nesse sentido, o filme produz uma inversão da lógica da mercadoria.

Lourenço passou grande parte da história transformando pessoas em objetos.

No final, é confrontado por uma pessoa que se recusa a permanecer objeto.

8.  NARCISISMO,  CONTROLE  E  A  IMPOSSIBILIDADE  DE  POSSUIR  O OUTRO

A  postura  de  Lourenço  pode  ser  relacionada  ao  Conceito  Freudiano  de Narcisismo.

Em Sobre o narcisismo: uma introdução (1914), Freud demonstra que o investimento libidinal pode estar fortemente direcionado ao próprio ego. Isso não significa simplesmente vaidade ou amor exagerado pela aparência. Em uma  perspectiva  psicanalítica,  o  narcisismo  envolve  uma  forma  de organização do investimento no eu e na relação com os objetos.

Lourenço parece estabelecer relações em que o outro somente adquire valor quando pode ser incorporado à sua própria lógica.

Ele não aceita facilmente o outro enquanto sujeito independente.

O cliente deve aceitar o preço.

O objeto deve obedecer ao significado que Lourenço lhe atribui.A garçonete deveria corresponder ao lugar que ele criou para ela.

A mulher viciada deveria permanecer na posição de alguém que recebe e obedece.

O olho deve testemunhar aquilo que ele quer olhar.

O pai deve existir na forma que ele consegue imaginar.

O ralo deveria desaparecer quando ele decide que deve desaparecer.

Em todos esses casos, existe a mesma tentativa: fazer o mundo funcionar segundo a vontade de Lourenço.

Essa  característica  permite  pensar  em  traços  de  funcionamento  narcísico  e também em mecanismos de controle obsessivo. Entretanto, é importante não transformar uma personagem cinematográfica em diagnóstico clínico fechado. O que se pode afirmar é que o filme dramatiza uma subjetividade organizada pela  necessidade  de  domínio  e  pela  dificuldade  de  lidar  com  a  alteridade.   Lourenço tenta  eliminar a distância entre desejar algo e possuir aquilo que deseja.

Quando deseja uma coisa, quer comprá-la.

Quando deseja uma parte do corpo, imagina comprá-la.

Quando deseja uma história, inventa-a.

Quando deseja uma origem, constrói um pai.

Quando deseja eliminar o cheiro, fecha o ralo.

Mas a realidade insiste em produzir algo que não pode ser completamente controlado.

9. REPETIÇÃO: O PERSONAGEM PRESO AO MESMO CIRCUITOOutro elemento importante da narrativa é a repetição.

Lourenço  repete  comportamentos,  trajetos  e  pensamentos.  Compra  objetos, atende clientes, vai à lanchonete, observa a garçonete, retorna à loja e convive novamente com o cheiro do ralo.

Essa repetição pode ser relacionada à compulsão à repetição discutida por Freud (1920).

A compulsão à repetição demonstra que o sujeito pode retornar continuamente a situações que não conduzem necessariamente à satisfação. A repetição não significa  simplesmente  fazer  a  mesma  coisa  porque  se  gosta  dela.  Muitas vezes, ela revela uma tentativa de elaborar algo que não foi simbolizado ou resolvido.

Lourenço repete porque não consegue concluir.

Ele compra, mas não se satisfaz.

Deseja, mas não consegue transformar o desejo em relação.

Inventa, mas não consegue preencher a ausência.

Tenta fechar o ralo, mas depois o abre.

É  justamente  essa  estrutura  circular  que  faz  com  que  o  ralo  seja  tão importante.

Ele não é apenas o lugar de onde vem o cheiro.

Ele é a imagem do circuito em que Lourenço está preso.

O que sai,  retorna.

O que é rejeitado, reaparece.

O que é comprado, não basta.

O que é possuído, não elimina a falta.O que é controlado, escapa.

O que é enterrado, volta à superfície.

10. O PAI, A AUSÊNCIA E A CONSTRUÇÃO DE UMA ORIGEM

A narrativa que Lourenço cria sobre o pai também pode ser compreendida a partir da necessidade de preencher uma ausência.

O  pai  não  é  apresentado  como  uma  presença  concreta  e  consistente.  Ele aparece  através  de  fragmentos  e  objetos  aos  quais  Lourenço  atribui  uma história.

O olho de vidro, a prótese e outros elementos passam a funcionar como peças de uma narrativa pessoal.

O personagem parece construir uma origem porque precisa de uma.

Essa  construção  não  precisa  ser  tomada  simplesmente  como  mentira consciente.  Psicanaliticamente,  a  fantasia  pode  desempenhar  uma  função muito mais profunda do que a simples falsificação da realidade. Ela organiza experiências, protege o sujeito de determinadas angústias e permite produzir sentidos para aquilo que permanece sem elaboração.

O pai imaginado por Lourenço pode ser compreendido como uma figura de autoridade  que  ele  procura  possuir  justamente  porque  não  consegue estabelecer uma relação viva com ela.

É significativo que esse pai seja associado à guerra.

A guerra traz consigo imagens de violência, morte, masculinidade, autoridade e sobrevivência. O olho que teria visto a guerra carrega, simbolicamente, uma experiência que ultrapassa Lourenço.

Ao atribuir esse objeto ao pai, Lourenço apropria-se de uma história que não viveu.Ele transforma o objeto em herança.

Essa construção imaginária permite que o objeto deixe de ser apenas uma mercadoria e passe a funcionar como um suporte para uma identidade que Lourenço tenta construir para si. 

11.  O  OLHO  DO  DÓLAR,  DE  DEUS    E  “O  OUTRO                                                                        Vendedor:  “Esse olho vale mais. Esse olho já viu de tudo”                                                           Lourenço — Tudo o quê?

Vendedor: Tudo. Ele viu tudo o que aconteceu! 

 Lourenço  quer  esse  poder  e  então  paga  pelo  valor  que  o  vendedor   oferece.                  Quando  mostra o olho de vidro a outro cliente,  este  o  compara  ao  “olho  do  dólar”,  remetendo  ao  olho  de  Deus representado  na  nota.  Lourenço,  porém,  rejeita  a  associação  e  responde: “Porque na nota de dólar é o olho de Deus... E este aqui é o olho do outro”. A distinção feita pelo personagem é significativa: enquanto o primeiro remete ao olhar divino, associado à proteção e à onisciência, o “olho do outro” introduz uma  dimensão  mais  obscura  e  inquietante,    coerente  com  o  universo  de fantasias e obsessões construído por Lourenço. O objeto, assim, ganha um significado  que  ultrapassa  seu  valor  material.  Esse  “outro”  pode  ser compreendido  como  aquilo  que  escapa  ao  controle  e  à  racionalidade  de Lourenço, aproximando-se do lado sombrio e desconhecido que ele próprio projeta  nos  objetos  que  coleciona.  O  olho  de  vidro,  portanto,  deixa  de  ser apenas uma mercadoria e passa a carregar um significado perturbador dentro de seu universo psíquico

12. CAPITALISMO, CONSUMISMO E A PSICANÁLISE DO “TER”

A dimensão social do filme não deve ser separada de sua dimensão psíquica.Lourenço não existe fora de uma sociedade na qual objetos possuem preço, pessoas precisam de dinheiro e o consumo organiza grande parte das relações sociais.

É nesse ambiente que sua subjetividade encontra espaço para se desenvolver.

O personagem leva a lógica da mercadoria ao extremo, mas não a inventa sozinho.

A sociedade já oferece essa lógica.

Shimizu  (2014)  desenvolve  justamente  a  articulação  entre  narcisismo, fetichismo, consumismo e exclusão social no filme. Seu trabalho demonstra como  a  dimensão  social  da  sociedade  de  consumo  pode  se  articular  à dimensão psíquica do personagem.

A loja de Lourenço pode ser entendida como uma espécie de laboratório dessa lógica.

Tudo tem preço.

O valor é definido por quem tem dinheiro.

A necessidade aumenta o poder de quem compra.

A história de um objeto é subordinada ao seu valor comercial.

Nesse  contexto,  Lourenço  transforma  sua  própria  subjetividade  em  uma extensão da lógica de mercado.

Ele não sabe simplesmente desejar.

Ele deseja como quem compra.

Ele não sabe simplesmente se relacionar.

Ele se relaciona como quem negocia.

Ele não sabe simplesmente olhar.Ele olha como quem quer possuir.

Fromm  (1976)  ajuda  a  compreender  essa  diferença  entre  uma  existência fundada  no  “ter”  e  outra  fundada  no  “ser”.  Lourenço  está  profundamente submetido  ao  primeiro  modo:  sua  identidade  parece  depender  daquilo  que consegue possuir.

O problema é que o “ter” não consegue resolver o “ser”.

Nenhum objeto consegue preencher completamente a falta.

Por isso, quanto mais Lourenço possui, mais precisa possuir.

O mecanismo é circular.

E o ralo é a imagem perfeita dessa circularidade.

13. O GROTESCO COMO FORMA DE REVELAR O QUE É REPULSIVO

O filme utiliza o grotesco não apenas para provocar humor ou estranhamento, mas para revelar aspectos que normalmente seriam ocultados.

O  cheiro,  o  ralo,  os  objetos  usados,  as  partes  do  corpo,  a  sexualidade,  o dinheiro e a morte são colocados em proximidade.

O que normalmente seria separado aparece misturado.

Essa característica também está presente no romance de Mutarelli. Negreli e Sodré (2019) analisam justamente a relação entre humor e grotesco na obra, especialmente  na  maneira  como  Lourenço  se  relaciona  com  as  figuras femininas e com o corpo.

O grotesco produz uma espécie de desorganização.

A  loja,  que  deveria  ser  um  espaço  comercial,  transforma-se  em  espaço  de fantasias.O olho, que deveria ver, não vê.

A mulher, que deveria ser sujeito, é tratada como objeto.

O objeto, que deveria ser vendido, passa a carregar uma identidade.

O cheiro, que deveria ser eliminado, torna-se fonte de força.

O pai, que deveria ser uma pessoa, é reconstruído por objetos.

A morte, que deveria interromper a narrativa, conduz Lourenço novamente ao ralo.

O  grotesco,  portanto,  é  adequado  à  lógica  psíquica  do  filme  porque  revela aquilo que a consciência tenta manter separado.

14. O TIRO FINAL E A QUEDA DA ONIPOTÊNCIA

O  disparo  contra  Lourenço  representa  o  momento  em  que  sua  fantasia  de controle encontra um limite concreto.

Durante grande parte da narrativa, ele age como se estivesse acima das regras comuns de reciprocidade. Compra, vende, manipula, humilha e determina.

Mas ninguém possui controle absoluto sobre o outro.

A mulher viciada demonstra isso de maneira radical.

Ela deixa de ser objeto e torna-se agente.

O tiro rompe a fantasia de que Lourenço pode determinar tudo o que acontece ao seu redor.

A partir daí, o personagem perde sua posição de domínio.É significativo que essa queda não ocorra simplesmente no espaço social da loja, mas esteja ligada à trajetória que o filme vinha construindo desde o início: a trajetória em direção ao ralo.

Aquele que passou o filme tentando controlar o que entra e o que sai termina atraído  justamente  pelo  lugar  que  representa  aquilo  que  não  pode  ser controlado.

A morte, nesse sentido, pode ser lida como o colapso final da onipotência.

Não se trata de afirmar que o filme oferece uma punição moral simples. A questão é mais profunda.

Lourenço  não  consegue  permanecer  protegido  dentro  de  seu  sistema  de controle  porque  o  próprio  sistema  contém  aquilo  que  ele  não  consegue dominar.

15. O RETORNO AO RALO: O QUE FINALMENTE SE REVELA

O final do filme pode ser compreendido como a conclusão de todo o percurso simbólico de Lourenço.

No começo, ele rejeita o cheiro.

Depois tenta escondê-lo.

Em seguida tenta eliminá-lo.

Mais tarde percebe que o cheiro possui uma força sobre ele.

Finalmente, aproxima-se dele.

Esse  movimento  pode  ser  entendido  como  uma  trajetória  do  recalque  à repetição e, finalmente, ao encontro com aquilo que havia sido rejeitado.

O ralo representa o lugar do resto.Tudo aquilo que o sujeito não quer ver é jogado fora.

Mas  Freud  demonstra  que  aquilo  que  é  rejeitado  psiquicamente  não desaparece simplesmente.

O retorno do reprimido pode ocorrer de formas inesperadas.

O ralo, portanto, funciona como uma metáfora do inconsciente: um lugar onde aquilo que não pode permanecer à vista é lançado, mas de onde seus efeitos continuam retornando.

Lourenço tenta colocar o cheiro do lado de fora.

Mas o cheiro invade sua vida.

Ele tenta colocar o outro na posição de objeto.

Mas o outro retorna como sujeito.

Ele tenta transformar o desejo em posse.

Mas o desejo permanece.

Ele tenta construir um pai.

Mas a ausência permanece.

Ele tenta controlar os objetos.

Mas eles passam a controlar sua imaginação.

Ele tenta dominar o ralo.

Mas acaba atraído por ele.

É nesse sentido que o título O Cheiro do Ralo adquire toda sua força.

O filme não é simplesmente sobre um homem que sente um mau cheiro.É sobre um homem que tenta eliminar tudo aquilo que não consegue suportar em  sua  própria  experiência,  até  descobrir  que  aquilo  que  rejeita  também constitui quem ele é.

16. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A  análise  de  O  Cheiro  do  Ralo  permite  compreender  Lourenço  como  um personagem construído a partir de uma profunda dificuldade de lidar com a falta e com a alteridade. Seu modo de se relacionar com o mundo é marcado pela  tentativa  de  transformar  tudo  em  objeto  de  posse:  objetos  materiais, dinheiro, histórias, partes do corpo, mulheres, memórias e até mesmo o olhar.

O ralo é o principal símbolo dessa dinâmica.

Inicialmente rejeitado, ele representa aquilo que Lourenço deseja retirar de seu campo  de  experiência.  Porém,  quanto  mais  o  personagem  tenta  eliminá-lo, mais o ralo retorna. No decorrer da narrativa, o cheiro deixa de ser somente algo externo e passa a ser associado à própria força de Lourenço. Ao final, ele já não foge do ralo: aproxima-se dele.

Essa transformação permite interpretar o ralo como representação daquilo que não pode ser completamente eliminado ou controlado. Ele é o lugar do resto, do  rejeitado,  do  que  retorna.  Nesse  sentido,  aproxima-se  da  dinâmica psicanalítica do recalque e do retorno do recalcado.

A mesma lógica aparece em sua relação com o dinheiro. Lourenço transforma a necessidade das pessoas em poder de negociação e reduz histórias e afetos a valores monetários. O outro deixa de ser reconhecido como sujeito e passa a ser  tratado  como  mercadoria.  O  filme,  assim,  apresenta  uma  crítica  à sociedade  de  consumo,  mas  essa  crítica  ganha  profundidade  quando observamos que Lourenço não apenas vive em uma sociedade orientada pela lógica do “ter”: ele incorpora essa lógica à própria maneira de desejar.

O  olho  de  vidro  sintetiza  outra  dimensão  fundamental.  Associado  ao  pai,  à ausência, ao olhar, à guerra, ao poder e posteriormente ao desejo sexual, ele torna-se uma espécie de objeto condensador das fantasias do personagem. Lourenço transforma o olho em testemunha, embora o olho não possa ver. Ao carregá-lo para observar a garçonete, transforma o olhar em posse e aproxima a figura paterna de sua própria experiência sexual.

A  garçonete,  por  sua  vez,  evidencia  a  impossibilidade  de  transformar completamente o desejo em mercadoria. Lourenço não deseja a mulher como sujeito, mas uma parte específica de seu corpo. Sua obsessão demonstra uma forma de objetificação na qual o objeto-parte ocupa o lugar da pessoa inteira. Mesmo quando há aproximação e nudez, o desejo não se encerra, porque a satisfação não elimina a falta que o sustenta.

A mulher viciada leva essa questão ao limite. Tratada por Lourenço a partir da lógica  do  poder  econômico  e  da  objetificação,  ela  finalmente  retorna  como sujeito  capaz  de  agir.  O  tiro  que  atinge  Lourenço  destrói  sua  fantasia  de controle e mostra que o outro nunca pode ser completamente reduzido ao lugar que lhe é atribuído.

Dessa maneira, o filme pode ser compreendido como uma narrativa sobre a tentativa fracassada de transformar a falta em posse.

Lourenço tenta possuir porque não suporta não possuir.

Tenta controlar porque não suporta o imprevisível.

Tenta  comprar  porque  não  consegue  estabelecer  uma  relação  de reciprocidade.

Tenta construir um pai porque a ausência exige uma narrativa.

Tenta transformar mulheres em objetos porque o desejo pelo outro implica uma alteridade que ele não consegue suportar.

E tenta eliminar o ralo porque não aceita aquilo que escapa ao seu domínio.

No entanto, aquilo que Lourenço rejeita retorna continuamente.O cheiro retorna.

O desejo retorna.

A falta retorna.

O outro retorna.

E, no final, o próprio Lourenço retorna ao ralo.

Assim, o grande paradoxo do personagem é que sua tentativa de controlar tudo acaba conduzindo-o justamente ao lugar onde o controle fracassa. O ralo, que inicialmente representa a sujeira que ele quer expulsar, termina representando aquilo que ele não consegue mais separar de si mesmo.

O filme revela, portanto, uma subjetividade presa entre o desejo de possuir e a impossibilidade de preencher a falta por meio da posse. A partir de Freud, pode-se compreender a presença da repressão, da repetição, do narcisismo, do fetichismo e das relações simbólicas entre controle e retenção. Com Lacan, torna-se possível aprofundar a dimensão do olhar, do desejo, da falta e do Outro.  Com  Fromm,  compreende-se  a  predominância  de  uma  existência organizada pelo “ter”. E, com Shimizu (2014), Tardivo (2011) e Negreli e Sodré (2019), a análise encontra interlocução acadêmica específica sobre o filme e sua relação com narcisismo, fetichismo, consumismo, perversão, grotesco e objetificação.

O ralo, enfim, não é apenas o lugar de onde vem o cheiro.

É o lugar para onde Lourenço tenta mandar tudo aquilo que não consegue elaborar.

E é justamente de lá que tudo retorna.                                                                                                                                                                                                                                                                REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.           COSTA,  Thainá  Castro.  Descartando  objetos  e  colecionando  pessoas:  o fetiche e a inutilidade em O Cheiro do Ralo. 2010. Trabalho apresentado no Encontro  Estadual  de  História  –  ANPUH-RS.  Disponível  em: www.eeh2012.anpuh-rs.org.br. Acesso em: 4 out. 2026.                                                          DHALIA, Heitor. O Cheiro do Ralo. Brasil: Primo Filmes, 2006. Filme. Disponível em: www.tv.apple.com. Acesso em:  03 out. 2026.                                                                             FREUD, Sigmund. Caráter e erotismo anal. 1908. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. Disponível em: www.valas.fr. Acesso em: 4 out. 2026.                                                             FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria  da  sexualidade.  1905.  In:  Obras  psicológicas  completas  de  Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. Disponível em: www.traco-freudiano.org. Acesso em: 5 out. 2026.                                                           FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução. 1914. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. XIV. Disponível em: www.ip.usp.br. Acesso em: 5 out. 2026.                                                            FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar.  1914.  In:  Edição  Standard  Brasileira  das  Obras  Psicológicas Completas  de  Sigmund  Freud.  Rio  de  Janeiro:  Imago.  Disponível  em: www.ip.usp.br. Acesso em: 5 out. 2026.                                                           FREUD, Sigmund. Repressão. 1915. In: Edição  Standard  Brasileira  das  Obras  Psicológicas  Completas  de  Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. XIV. Disponível em: www.ip.usp.br. Acesso em: 6 out. 2026.                                                           FREUD, Sigmund. O inconsciente. 1915. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. XIV. Disponível em: www.ip.usp.br. Acesso em: 6 out. 2026.                                                           FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. 1920. In: Obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. Disponível em: www.repositorio.ufc.br. Acesso em: 6 out. 2026.                                                              FREUD, Sigmund. Fetichismo. 1927. Disponível em: www.freudedition.net. Acesso em: 7 out. 2026.                                                          FROMM, Erich. Ter ou ser? 4. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1987. Disponível em: www.grupogen.com.br. Acesso em: 5 out. 2026.                                                            LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. Disponível em: www.companhiadasletras.com.br. Acesso em: 7 out. 2026.                                                    MUTARELLI, Lourenço. O Cheiro do Ralo. São  Paulo:  Devir  Livraria,  2002.  Disponível  em:  www.books.google.com. Acesso em: 4 out. 2026.                                                        NEGRELI, Pâmella Possatti; SODRÉ, Paulo Roberto. O grotesco humorístico de Lourenço Mutarelli: a garçonete e a noiva em O Cheiro do Ralo. Trama, Marechal Cândido Rondon, v. 15, n. 36, p. 110-121, 2019. Disponível em: www.e-revista.unioeste.br. Acesso em: 6 out. 2026.                                                         SHIMIZU, Bruno. Narcisismo, fetichismo, consumismo e exclusão social: articulações a partir do filme O Cheiro do Ralo. Revista de Psicanálise da SPPA, Porto Alegre, v. 21, n. 1, p. 207-232, 2014. Disponível em: www.revista.sppa.org.br. Acesso em: 6 out. 2026.                                                        TARDIVO, Renato Cury. Liberdade e perversão  em  O  Cheiro  do  Ralo,  de  Heitor  Dhalia.  Revista  Mal-Estar  e Subjetividade,  Fortaleza,  v.  11,  n.  2,  p.  873-884,  2011.  Disponível  em: www.pepsic.bvsalud.org. Acesso em: 7 out. 2026.

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